janeiro 14, 2004

Comentando

O Ensaio, ao sabor da corrente, foi pensado para abordar temas sobre a vida portuguesa contemplando o social, o político, o económico. Também realidades vindas do estrangeiro que pudessem vir a influenciar o nosso quotidiano, poderiam ser tema de comentário.
Ao longo do ano de 2003 nem sempre consegui fidelizar aquele pensamento e também não fui assíduo na pesquisa de assuntos para comentar. Passeei pela blogosfera, visitei muitos sites, demorei horas a ler os posts que julguei mais interessantes, deixei alguns comentários, todavia não realizei o que tinha pensado como projecto.

Mas, a idea não foi abandonada e quero dar-lhe início. Encontrar temas não é difícil, difícil é torná-los assunto de interesse e de debate. Debate que não existe na nossa terra porque, quotidianamente, assistimos somente a conversa de comadres.

E a este propósito, referindo o semanário “Expresso” de 10 de Janeiro de 2004, a páginas 20 do 1º caderno, ali encontro um texto do deputado Manuel Alegre que me merece alguns reparos.
Diz ele:
“Depois de tantos anos de desterro, passadas a euforia da revolução e a tranquilidade da normalização democrática, estou a fazer agora a amarga descoberta do exílio de dentro, a sensação de ser estrangeiro no próprio país ou, pelo menos, a de não me reconhecer num Portugal que parece estar a diluir-se e a transformar-se num bairro periférico de si mesmo, com todos os valores virados do avesso, sob o império do nacional-populismo escrito, falado, radiodifundido e televisionado. Para onde emigraram a alegria, a esperança, a decência, o bom senso e o bom gosto? Parece-me ouvir de novo António Nobre: «Amigos que desgraça nascer em Portugal». Ou Camilo Pessanha: « Eu vi a luz em um país perdido»”.
Digo eu:
Espantoso! Um homem que, regressado do desterro, “assentou praça” em deputado, desempenha o cargo ao longo de 30 anos, vem agora dizer que volta ao exílio cá dentro!
Então o que tem andado a fazer no Parlamento, para além de receber o salário?
É suposto que a um deputado compete lutar para que todos os portugueses sintam orgulho de o ser, e não a ficar admirado do estado a que as coisas chegaram!
Diz ele:
“Porque de facto é preciso dar a volta. Por exemplo: na questão das eleições presidenciais. Diz-se que a direita está em vantagem e, pela primeira vez, tem fortes possibilidades de ganhar. Mas eu lembro-me que Freitas do Amaral obteve 47% na primeira volta e acabou derrotado por um Mário Soares a quem as sondagens iniciais davam apenas 6%. Há gente na esquerda que parece conformada. Há até quem esteja a torcer para que o candidato da direita ao menos seja Cavaco Silva. E também há gente da direita a pretender designar o candidato da esquerda. Não é uma situação salutar. A democracia precisa de confrontos claros. Alguém tem de levantar a bandeira. Alguém tem de preparar-se para dar a volta.”
Digo eu:
Então o problema que aflige o deputado, que o faz sentir novamente desterrado é uma questão de eleições, uma questão de percentagem, uma questão de esquerda e direita, uma questão de debate político.
E os grandes problemas do país? O ensino, a instrução, a saúde para todos, a gestão dos recursos humanos ao serviço do estado? E a justiça?
Diz ele:
“Há um poema de Sophia, «Fragmento de Os Gracos», que é uma grande lição de política. Devia ser obrigatório para alguns socialistas sempre preocupados em não desagradar. Ora vejam:
«Os ricos nunca perdem a jogada / Nunca fazem um erro. Espiam / E esperam os erros dos outros / Administram os erros dos outros / São hábeis e sábios / Têm uma larga experiência do poder / E quando não podem usar a própria força / Usam a fraqueza dos outros / E ganham».
Tem sido um pouco assim desde o 25 de Abril. A direita não resistiu pela força. Administrou as nossas fraquezas. Foi tecendo, como diz Sophia, «uma grande rede de estratagemas / Uma grande armadilha invisível». Creio que foi aqui que chegámos. A dificuldade está nessa «grande armadilha invisível». É um combate difícil. Exige cabeça fria. E capacidade para desta vez sermos nós a administrar os erros deles. Mas exige também a coragem de fazer frente. Há melancolia a mais. Falta um sentimento de revolta. Para dar a volta a isto.”
Digo eu:
Porque só os socialistas deviam conhecer o poema? E os outros?
O deputado mantém as ideas velhas, ideas corporativas, está velho, não foi capaz de acompanhar as ideas novas que devem reger os povos, ideas que promovem projectos de desenvolvimento, ideas que têm de ter a participação de todos. Os tempos que correm não se compadecem com esquerdas e direitas! Esquerdo, direito só a marcar passo!!
Continua a colocar tudo num campo onde se situam os adversários para o combate, a esquerda e a direita e os outros; nas bancadas o “zé” aplaude conforme os seus gostos, há claques, há cliques, há até fogo de artifício, bandas de música e farnel distribuido.

A esquerda e a direita têm de se entender se querem sobreviver e continuar a existir para ambas aperfeiçoarem a democracia, cuidar da gestão do país e acabar com a pobreza.
Penso que não existem dúvidas sobre o poder dos ricos, sobre a sua ambição, sobre a sua capacidade de ganhar. Quando o rico perde poder, quando deixa de ganhar, então já não é rico.
E creio que não há quem esteja pensando acabar com os ricos; essa atitude foi tentada em 1975 e todos nós conhecemos os resultados. Mas, tem de haver quem esteja pensando em controlar os ricos, em os fazer cumprir as leis, em os integrar na sociedade. Sim, porque os ricos têm de ser integrados, não podem viver acima nem ao lado da sociedade.
E, é urgente acabar com os pobres, pobres nos dinheiros, pobres nas letras, pobres no trabalho, pobres no carácter. Sim, porque os pobres têm de ser integrados, não podem viver abaixo nem ao lado da sociedade.
E para isso, a esquerda e a direita, todos os cidadãos, têm de se empenhar, têm de se esforçar, têm de actuar.

Publicado por Manuel Marques em janeiro 14, 2004 12:34 PM